Resumo:

  • De acordo com o dicionário Merriam-Webster, intraempreendedor é um executivo que desenvolve novas empresas dentro da sua corporação.
  • A definição pode ser um pouco mais abrangente, abordando ainda pessoas que lideram processo de inovação em uma organização.

Um dos maiores especialistas mundiais em intraempreendedorismo, o professor e consultor Tendayi Viki, fala de maneira descontraída de dois erros clássicos quando falamos de inovação em grandes corporações. 

O primeiro erro é apostar somente em uma grande ideia que irá revolucionar a corporação, ao invés de dezenas ou centenas de pequenas ideias que podem trazer essa mudança e que devem ser gestadas apropriadamente. 

O outro é criar o que ele chama de ‘empreendedorismo de palco’, isto é, construir um lab onde jovens de calça jeans e camiseta preenchem quadros brancos com post-its, praticando “as novas religiões” do design thinking e lean startup, mas sendo incompreendidos pelos outros times e demasiadamente cobrados por resultados.

Isso certamente não é o intraempreendedorismo moderno. Vamos tratar neste texto do conceito histórico, das vantagens de adotar a prática e quais as melhores ferramentas para conseguir extrair valor deste modelo.

O que é intraempreendedorismo?

O que é intraempreendedorismo?
Crédito: Undraw

O termo foi criado por Gifford Pinchot III, autor de Por que você não tem que deixar a Corporação para se tornar um empreendedor, publicado em 1985. A obra dá dicas para que empreendedores tenham sucesso dentro de uma empresa, ensinando como escolher uma ideia, fazer que ela seja aprovada e ainda encontrar os recursos necessários para financiá-la, entre outras etapas da gestão da inovação.

Por definição, o intraempreendedorismo é uma metodologia adotada por muitas organizações para valorizar o seu público interno e criar valor de maneira sistemática. Significa que o colaborador assume a responsabilidade direta de transformar uma ideia num novo produto, serviço ou modelo de negócio, ao invés de iniciar a sua própria empresa. 

Fomentar o empreendedorismo interno se tornou uma das soluções para as empresas resolverem grandes problemas e explorarem oportunidades. No cenário atual, há necessidade de lançar novidades o tempo inteiro e, por isso, incentivar a criatividade do time é essencial para permanecer na competição.

Vantagens do intraempreendedorismo

Vantagens do intraempreendedorismo
Crédito: Undraw

Adotar o modelo de empreendedorismo é benéfico para as duas partes, o colaborador e a empresa. O público interno recebe apoio financeiro e autonomia para criar a inovação, contando com o auxílio da organização por meio de recursos, times e conhecimento, o que pode acelerar todo o processo. 

O conceito permite que um colaborador coloque em prática novas ideias sem assumir os riscos intrínsecos à abertura de um negócio, como falta de receita ou tempo, equipe limitada e imprevisibilidade sobre o futuro.

Já a empresa terá um líder com motivação e interesse para explorar novas estratégias e direções que não haviam sido pensadas antes. Uma reportagem da HBR mostra que incentivar o intraempreendedorismo tende a elevar o engajamento dos colaboradores e aumentar os índices de produtividade. 

A alta rotatividade de funcionários e a saída de talentos é outra questão que o intraempreendedorismo pode resolver. Como se diz o ditado: um bom craque é formado dentro de casa. 

Quais são as características do intraempreendedorismo?

Os intraempreendedores incluem qualquer pessoa dentro da empresa que tenha habilidades empreendedoras, para desenhar uma nova visão de futuro para a organização e criar a inovação. 

De maneira geral, conseguem juntar várias competências e talentos: são criativos e apaixonados pela causa da empresa, têm espírito empreendedor, gostam de assumir riscos, sendo flexíveis, proativos e abertos às mudanças. 

Gostam do trabalho em equipe e de colaborar, liderando times e criando um grupo de apoiadores para as suas ideias. Contam também com a persistência para estabelecer um novo empreendimento dentro de uma grande empresa.

Esses colaboradores também têm facilidade para se adaptar a novos ambientes e contam com boas doses de inteligência emocional. Somente assim vão poder motivar outras pessoas a trabalharem para o mesmo objetivo.

Incentive o intraempreendedorismo na sua organização

Incentive o intraempreendedorismo na sua organização
Crédito: Undraw

Um empreendedor interno não vai conseguir solucionar problemas ou identificar oportunidades de melhoria se não houver incentivo. Por isso, é tão importante criar políticas de apoio para incentivar o intraempreendedorismo.

Essa moeda de troca pode ser tempo para criar uma solução inovadora, aportes financeiros e de recursos para que o projeto saia do papel e até mesmo dar liberdade criativa para que o intraempreendedor consiga tornar uma ideia em um nova área de crescimento da organização. 

Fomentar uma cultura de colaboração na empresa é um dos primeiros passos, com vistas a incentivar a troca de conhecimento entre pares, diminuir os silos de informação e testar formatos de liderança com menos níveis hierárquicos.

Ter um programa de ideias dentro da sua organização também é outra boa prática, mobilizando e promovendo a participação dos colaboradores em prol de um objetivo definido. 

Criar competições internas é também uma alternativa. Os hackathons se tornaram populares e funcionam como uma ferramenta moderna para conseguir novas ideias, desenvolver e introduzir novas soluções no mercado.

Adotar um software de gestão de ideias como o SENNO é uma tática complementar. Os aplicativos dão mais transparência ao processo de inovação, pois qualquer pessoa que tenha acesso pode sugerir um novo projeto. Esses softwares funcionam como um grande banco de ideias centralizado, facilitando o feedback e a construção de um projeto de inovação de maneira coletiva.

Primeiros cases de intraempreendedorismo

A Sony também é outro case de incentivo ao empreendedorismo interno.
A criação do Playstation é um case de empreendedorismo interno. Crédito: Wikipedia

Um dos cases mais emblemáticos de intraempreendedorismo é da 3M. O cientista Spencer Silver estava dedicado a criar um adesivo extremamente forte para uso em tecnologia aeroespacial. Em vez disso, ele acidentalmente criou um adesivo leve que adere bem às superfícies, mas que não deixa resíduos. Foi assim que se deu a invenção do post-it ao longo dos anos 1960 e 1970.

A Sony também é outro case de incentivo ao empreendedorismo interno. O engenheiro Ken Kutaragi passava horas brincando de videogame com a filha com o Nintendo. Ele então pensou em desenvolver um console de videogame que tivesse uma performance melhor.

Mas esta ideia, inicialmente, não foi bem aceita por alguns dos executivos, que achavam que investir em videogame era perda de tempo. Ao longo dos anos, ele conquistou a confiança dos gestores e seu trabalho foi a base para a criação do Playstation, hoje o console é líder de mercado e um dos grandes ganha-pão da companhia japonesa. 

O McLanche Feliz foi a ideia de Dick Brams, um dos gerentes regionais do McDonald’s em Saint Louis. Ele teve a ideia de servir uma refeição completa que fosse atrativa para crianças, com alimentos e bebidas em pequenas quantidades. Ele apresentou o conceito em 1977 e, dois anos depois, a empresa expandiu a novidade para os Estados Unidos, que se tornou um grande sucesso. 

Intraempreendedorismo e o Vale do Silício

James Gosling criou a linguagem de programação Java dentro da Sun Microsystem
James Gosling criou a linguagem de programação Java dentro da Sun Microsystem. Crédito: CIO

O intraempreendedorismo começou a ganhar evidência a partir da adoção por parte das empresas radicadas no Vale do Silício. 

O Google viu dois de seus produtos mais bem-sucedidos, o Gmail e o Mapas serem desenvolvidos a partir da iniciativa de funcionários, Paul Buchheit e Noel Gordon, respectivamente. A empresa tem uma política que os colaboradores podem dedicar 20% do seu tempo para projetos pessoais. 

O botão curtir do Facebook também foi uma ideia desenvolvida internamente a partir de um hackathon, um conceito que transformou o mercado de publicidade e das redes sociais. 

Antes de Google e Facebook, a empresa Sun Microsystem já adotava táticas para incentivar o intraempreendedorismo. Um dos seus engenheiros mais qualificados, James Gosling, criou a linguagem de programação Java, base de aplicativos em diversas plataformas como Windows, iOS e Android. 

O conceito é usado no Brasil

Claudio Zini, diretor-presidente da Pormade Portas. Crédito: UOL

A paranaense Pormade Portas tem uma cultura organizacional que incentiva o intraempreendedorismo. A fabricante de portas atua no mercado brasileiro desde 1939, tem 650 funcionários e conta com um programa estruturado de geração de ideias e soluções. 

Todo funcionário tem o aval da gerência para apontar erros de produção e indicar possíveis soluções. E se a sugestão for aceita, o colaborador recebe um incentivo financeiro. São R$ 10 reais por sugestão após a reunião com a chefia e mais um bônus financeiro a cada semestre. 

Somente no primeiro semestre de 2019, a companhia injetou na conta dos colaboradores R$ 40 mil e teve em retribuição 38 soluções inovadoras. Confira o caso completo no portal UOL.

Conclusão

Existe uma frase clássica de Steve Jobs, onde ele dizia que era “mais divertido ser um pirata do que ingressar na Marinha”. Hoje em dia, os empreendedores não precisam escolher entre abrir a própria empresa ou ser mais um dentro de uma corporação. Eles têm a opção de ser empreendedores e perseguir a inovação dentro de uma grande corporação. Um dos segredos das empresas mais inovadoras é justamente criar um ambiente cultural propício para a inovação.

A transformação digital incentivou a adoção do intraempreendedorismo, uma vez que as empresas são obrigadas a gerar inovação de maneira sustentável para permanecerem relevantes e dar uma resposta às startups. 

É nesse contexto que o intraempreendedorismo se tornou uma das ferramentas mais usadas para gerar ideias que visam criar oportunidades de negócio, otimizar processos ou gerar novos fluxos de receitas em uma organização. 

As organizações de hoje estão abertas para identificar o potencial de seu público interno, incentivando o compartilhamento de ideias e criando assim uma vantagem competitiva. Outro ponto a ser considerado é que quando têm a oportunidade adequada, os intraempreendedores servem de exemplo para outros colaboradores.Gostou deste post? Se sim, convidamos a baixar o método SENNO. Trata-se de uma metodologia que apresenta os conceitos da gestão da inovação de maneira didática, a partir de seis estágios. Com ele, você vai aprender a ser um líder em inovação e inovar como as melhores organizações do mundo.