Resumo

  • O termo transformação digital se tornou um grande clichê no mundo corporativo.
  • Mesmo com todo ganho tecnológico, a produtividade mundial está caindo desde os anos 1970.
  • A inovação aberta pode ser uma oportunidade para as empresas se digitalizarem de maneira mais rápida e ter ganhos de produtividade. 
  • Mas o foco não deve estar na tecnologia e sim na criação de modelos de negócio disruptivos.


Os executivos responsáveis pela transformação digital estão sofrendo uma fadiga com o termo. Isso se deve porque a expressão se tornou um clichê que descreve todo e qualquer esforço de modernização. Se colocarmos no papel, toda a empresa já tem alguma iniciativa de digitalização em curso. 

A consultoria Nominet mostra que extrair valor da transformação digital é um desafio constante: 93% dos executivos falam que sua empresa está engajada ou planejando se engajar em um projeto de transformação digital. A pandemia do coronavírus, como já se tornou um consenso, acelerou essa mudança. 

Mas fica a pergunta: estamos caminhando em direção à transformação digital por modismo ou estamos nos digitalizando da maneira correta? 

Uma das respostas é observar, primeiro, que a tecnologia é cada vez mais complexa e cara. É preciso entender também o famoso paradoxo da produtividade, para na sequência, pensarmos como a inovação aberta pode ser a melhor estratégia para uma digitalização bem-sucedida. Algo que somente vai acontecer se o foco estiver não na tecnologia, mas na criação de novos modelos de negócio.

A tecnologia se tornou complexa

…e a transformação digital cada vez mais cara

Tecnologias típicas da transformação digital como a realidade estendida ainda têm um custo alto de implementação. Crédito: Pixabay
Tecnologias típicas da transformação digital como a realidade estendida ainda têm um custo alto de implementação. Crédito: Pixabay

O nível de sofisticação de tecnologias como a DARQ aumentou muito. Neste mundo pós-digital, é necessário superar os custos de transição tecnológica e ampliar massivamente a sua adoção nas organizações e na sociedade.

Ao mesmo tempo que é impossível conhecer todas as tendências, o custo de implementação se tornou estratosférico. Gastos com a tecnologia focada em transformação digital chegarão a US$ 6 trilhões até 2022, estima a consultoria IDC.

Esse é um dos motivos que empresas e nações enfrentam um importante dilema. Desde de quando começou a revolução dos microchips, em 1970, a produtividade da economia não cresce no mesmo ritmo da evolução tecnológica.

E nem sempre ela entrega o retorno sobre o investimento, porque muitas destas tecnologias dependem de um grande volume de dados e de receitas, algo que nem sempre é viável para as pequenas e médias empresas. Esse fenômeno é observado como o paradoxo da produtividade.

Dilema da produtividade

Muita tecnologia, mas produtividade em baixa

A revista Time examina a questão da queda da produtividade em estudos recentes. O Bureau of Labor Statistics mostra que o pico de produtividade dos Estados Unidos ocorreu entre 1945 e 1973, quando houve investimentos massivos públicos e privados em educação, infraestrutura e treinamento dos trabalhadores. 

Esse paradoxo já foi tema de artigos de gente de peso, como Robert Solow, Mckinsey, MIT, Stanford e The Economist. A Mckinsey afirma que a produtividade nos países ricos caiu cerca de 0,5% entre 2010 e 2014. 

Embora os dados não sejam exatamente positivos, indicam uma melhora em comparação com o período anterior: na década de 2000, a produtividade caiu a taxas de 2,5%. Existem fatores estruturais e sazonais para os números de 2010-2014: 

  • A crise de 2008 deixou a demanda desaquecida em boa parte do mundo. 
  • Nos anos 1990 houve um ‘boom’ de produtividade, logo, uma queda já era esperada. Os ganhos da era PC foram maiores do que os obtidos por dispositivos móveis. 
  • A digitalização também tem um papel central, trazendo embutida a promessa de aumento de produtividade e de criação de valor. 

Os benefícios da transformação digital estão muito presentes na nossa vida, mas não vêm sendo materializados em escala nas empresas. Existem alguns fatores que levam a este cenário: o atraso na adoção de certas tecnologias, altos custos de transição e a canibalização das receitas existentes.

Transformação digital e inovação aberta

Construindo parcerias e viabilizando a digitalização

O autor Henry Chesbrough examina o fenômeno da produtividade e da transformação digital sob o prisma da inovação aberta. 

No vídeo, ele pontua que o aumento de produtividade com o uso de tecnologia passa por três facetas, que envolvem não só a geração da inovação, mas também a disseminação e absorção dela. A SENNO já escreveu um guia definitivo sobre inovação aberta, por isso, recomendamos separar um tempo para fazer essa leitura. 

Trocando em miúdos, Chesbrough fala que é necessário a criação de uma infraestrutura de inovação para aproveitar essa abundância de conhecimento e tecnologia. Ou seja, não basta somente colocar dinheiro em laboratórios e centros de pesquisa. Devemos, principalmente, disseminar o conhecimento. 

“Se a inovação aberta é tão boa, por que não vemos crescimentos na produtividade econômica?”, indaga o professor

Para Chesbrough, existem algumas ferramentas atuais para a disseminação da inovação, algo que possibilitaria o aumento de produtividade em escala global. Ele cita softwares de código aberto, o uso comum de bens intelectuais, bem como o investimento em universidades, visando a capacitação das pessoas para absorver novos conhecimentos, processos e tecnologias. 

A partir dessa análise, passamos a entender que a transformação digital de empresas e economias exige uma mudança não só em tecnologias, mas também nas habilidades e na qualificação do público interno, bem como uma nova cultura empresarial, mais aberta e colaborativa.Para isso acontecer, uma boa fórmula é investir em parcerias, para obter expertise e conhecimento. 

Somente assim a inovação aberta será uma ferramenta para adquirir essas novas capacidades e acelerar a transformação digital, criando, por consequência, modelos de negócios disruptivos. 

Uma companhia que deseja investir em inteligência artificial pode internalizar a iniciativa, mas terá uma curva de aprendizado lenta, pois vai precisar treinar seus times (e as máquinas) para descobrir como algoritmos podem ajudá-la a conquistar seus objetivos. 

Um atalho neste sentido, é procurar a ajuda de uma startup especialista em IA. Essa parceira vai assumir as tarefas de implementação, ingestão de dados, treinamento do machine learning e ainda compartilhar os riscos do projeto não dar certo. 

Neste exemplo hipotético, vimos que o aprendizado contínuo e colaborativo ajudou a empresa a implementar um projeto bem-sucedido e vai auxiliar em novos ciclos de inovação, pois já há um ponto de partida em comum.

Foco no modelo de negócio

A inovação aberta ajuda a disruptar mercados

Os investimentos em transformação digital precisam ir para a inovação e 
a criação de modelos de negócios disruptivos. Crédito: Pixabay
Os investimentos em transformação digital precisam ir para a inovação e
a criação de modelos de negócios disruptivos. Crédito: Pixabay

Mas se a transformação digital não traz necessariamente ganhos de produtividade, as organizações que estão largamente adotando o conceito estão erradas? 

Em parte, é provável que sim. 

Isso porque a transformação digital não é um fim, mas sim um meio. A tecnologia é parte essencial do mundo atual, mas atua como suporte para a criação de novos modelos de negócio.

A Mckinsey observa que cerca de 25% a 30% do faturamento vêm de novas fontes de negócios. As empresas que compreenderem essa mudança vão obter vantagens no longo prazo. 

Investimentos incrementais em produtividade não impulsionam o crescimento. As empresas precisam gerenciar esses custos e reduzi-los ao máximo, e então usar o dinheiro economizado para inovação. Os investimentos precisam ir para a inovação e modelos de negócios disruptivos.

O que o histórico nos mostra é que as crises são excelentes laboratórios, trazendo ingredientes de ruptura para testar novas formas de geração de valor, como a inovação aberta. A economia compartilhada só se tornou possível graças à crise financeira de 2008, com uma diversidade de ativos subutilizados e pessoas precisando de novas fontes de renda.

O comércio eletrônico na Ásia, por sua vez, teve um grande empurrão da crise sanitária da SARS em 2002. Com as pessoas em casa, as compras online cresceram exponencialmente, dando à China um papel de destaque nesse mercado. 

Conclusão

A tecnologia nos ajuda a pedir pizza pelo celular, fazer videochamadas com colegas e familiares e ainda ver filmes de gatinhos por streaming. Mas quando analisada pelo prisma do universo corporativo, há ainda muito o que fazer. 

É necessário um esforço conjunto de capacitação para aproveitar essa revolução tecnológica em toda a sua complexidade. Mais do que ficarmos deslumbrados com esse potencial, devemos nos atentar a questões de absorção e disseminação dela. 

Do contrário, a inovação originada da tecnologia pode não gerar resultados esperados, especialmente quando pensamos em produtividade e na criação de novos modelos de negócio. Isso pode se transformar numa barreira que frustre aqueles CEOs cansados de ouvir a expressão transformação digital. 

Se as métricas, especialmente as de curto prazo, não acompanharem as expectativas geradas, muitos podem desistir ou cancelar seus projetos antes mesmo de eles chegarem no mercado e gerarem valor às pessoas.

É fato que a transformação digital é uma premissa para inovar. Mas sem a integração, colaboração, criação de parcerias, o compartilhamento de conhecimento e adoção da inovação aberta, essa tarefa pode se tornar muito mais árdua.